Explorando o Japão – Kintsukuroi

A arquitetura japonesa inspira muitos pelo seu excêntrico design que além de majestoso é funcional. Ainda falando de cultura tradicional, temos como exemplo de beleza imperfeita o Kintsukuroi, que pode ser traduzido como a arte de consertar concertar objetos (de cerâmica) com ouro.

O Japão é uma nação onde a tecnologia está em quase tudo que se veja a sua volta. Da Cerimônia do Chá ao trem bala, coloca a terra do Sol nascente como uma das referencias da atualidade. Contudo, em contraste a isso, temos a cultura tradicional que é simplesmente linda e “perfeita” mesmo nas imperfeições.

 

kintsukuroi-processo

 

Mais do que restaurar objetos, o Kintsukuroi é sinônimo de valiosidade e perfeição (mesmo nas imperfeições). Para explicar melhor o conceito, usaremos como comparação nossa cultura e depois iremos a cultura japonesa, contando a história dessa prática que já está incorporada a arte japonesa há séculos.

 

Nós somos conhecidos no mundo pelo famoso “jeitinho brasileiro”, que consiste em resolver algum problema ou concertar algo de modo criativo como usar um arame para prender algo que quebrou, usar prego pra consertar o chileno Havaianas (quem nunca?)

Já no Japão, quando algo quebra, geralmente (tratando-se de eletrônicos, manutenção de vias) tentam ser impecáveis e fazem o possível para que aquilo “volte a vida” e com a aparência mais próxima do original possível. Quando algo que produzem, dá problema, ficam perplexos, pois são perfeccionistas por natureza

Há um comercial da Semp Toshiba que mostra bem isso: Pra eles tudo funciona perfeitamente, e quando quebra, é motivo para “admiração e espanto”, tipo, “Nossa, é verdade? Está quebrado?”

 

Veja o vídeo abaixo:

 

 

 

História do Kintsukuroi

Kintsukuroi ou “Arte de consertar com ouro” é uma das formas de arte mais belas do Japão. Neste tipo de reconstituição, a peça em questão (geralmente de cerâmica) é submetida a um tipo de colagem especial, onde a estrutura original do objeto é restaurada e entre os fragmentos, há a presença de uma mistura de urashi (laca) ou epóxi e ouro em pó.

 

Essa técnica de reconstrução usando ouro (ou outro metal menos nobre como prata e bronze) teve origem há alguns séculos atras e há uma fábula, que sera resumida na sequencia.

 

Séculos atrás, viveu um imperador. Em seu palácio, Era majestosamente preenchido com o que de melhor havia na época em termos de mercadoria. Era o início da primavera, e a temporada de visitas reais, quando reis e príncipes admirados uns com os outros pelas posses de cada um, davam presentes maravilhosos além de banquetes fartos. E este ano foi especial, porque os visitantes veriam a investidura de seu amado filho Kintsukuroi como príncipe herdeiro do império.

 

O imperador estava animado este ano, porque ele tinha uma taça nova e bonita para mostrar aos seus amigos, feita especialmente para ele pelo mais fino dos artesãos e produzida com os melhores materiais. Imaginem então seu horror quando o imperador foi ao seu gabinete e descobriu que sua valiosa obra de arte em forma de taça estava quebrada, em uma centena de pedaços. Como poderia ter acontecido? Ninguém sabia. O que poderia ser feito sobre isso antes que os primeiros visitantes chegassem? Ninguém poderia oferecer alguma ideia, pois o tempo era muito curto para começar de novo e fazer outra.

 

Neste momento, a alegria do imperador virou uma tristeza profunda, ficou desanimado pois não tinha mais a sua valiosa peça, mas ainda mais triste que algo tão bonito estava agora aos cacos. Retirou-se em seus aposentos particulares com seu amado filho para compartilhar sua dor, e eles conversaram durante toda a noite juntos.

 

Na manhã seguinte, o imperador acordou ao som de uma grande comoção. Seus ministros pediram para vê-lo urgentemente. O gabinete de tesouros agora tinha sido assaltado, e desta vez a grande coroa dourada e nova que havia sido feita para seu amado filho, especialmente para o momento da posse, tinha simplesmente desaparecido – junto com os pedaços da taça quebrada.

 

Pra piorar, o ladrão tinha sido visto, mas não reconhecido, uma vez que ele estava coberto de sujeira e cicatrizes, sem nada para distingui-lo.

 

Ninguém sabia ao certo onde o ladrão tinha ido, mas talvez, estivesse em um dos aposentos do príncipe, pois ao bater na porta, não havia resposta, contudo, ouvia-se ruídos provenientes da parte interna do quarto.

 

O imperador ficou em silêncio por vários minutos. Em sua face e no rosto de seus ministros via-se tristeza, mas não raiva, lamento mas também o amor. O que estava acontecendo?

 

Eventualmente, o imperador falou. “Deixem o príncipe em seus aposentos, sozinho. Se ele está pronto para governar, ele está autorizado a agir. Sua vontade e minha vontade são como uma só. “Os ministros não entenderam ao certo o que isso significava, mas a mensagem era clara. Eles então ficaram sem fazer absolutamente nada.

 

Assim, o dia passou. O imperador manteve-se em seus aposentos privados. O principe permaneceu em seus aposentos apesar de ser possível ver fumaça  saindo da chaminé e um fogo aceso, que obviamente tinham sido causado por ele. E, eventualmente, os ministros cansados de aguardar por ele foram para a cama. Os convidados importantes eram esperados no dia seguinte.

 

Imaginem agora a surpresa de manhã, quando eles foram para o gabinete do tesouro para preparar seus itens para exibição e encontraram a taça preciosa de volta em seu lugar, todo de novo e, agora brilhando com veios de ouro entre as rachaduras. Sua beleza parecia ainda maior! E coroa do príncipe, mais fina, mas falando em sua simplicidade de uma força, uma autoridade ainda mais surpreendente, e de algum modo tudo estava melhor do que antes. A posse poderia ir em frente.

 

Um sorriso de entendimento secreto passou entre o imperador e o filho cujas mãos recém-cicatrizadas lhe mostrara digno de ir para o reino, já que ele provou ter sido capaz de restaurar a glória de algo muito valioso e fez com que tornasse ainda mais preciosa.

 

A partir daí, o kintsukuroi virou uma prática para tornar objetos ainda mais valiosos… Louças e cerâmicas de altíssimo valor, eram quebradas propositalmente para que artesões as restaurassem utilizando algum material precioso (sendo o mais comum o ouro) para a reconstituição do produto em questão.

 

Kintsukuroi na Atualidade

Nos dias atuais são várias as aplicações da técnica de restauração com material nobre. No meio artístico, várias esculturas são criadas por meio de peças que foram quebradas para formar outras figuras.

 

 

 

 

Essa forma de expressão artística por meio de ouro também foi inserida em peças que não estavam prejudicadas estruturalmente, mas que foram embelezadas por meio dessa inspiração, como pode ser visto abaixo:

 

 

 

Temos ainda a expressão artística corporal, demonstrada por meio da tatuagem, onde desenhos ou padrões são feitos no corpo seguindo as formas de rachaduras na pele, conforme o exemplo a seguir:

 

 

 

 

 

E engano seu se as aplicações desse conceito acabou, no conceito chamado “Craquelado” as mulheres aplicam essa forma de arte em suas unhas, com as mais diversas cores e tudo isso seguindo o padrão do kintsukuroi.

 

 

 

 

 

Confira agora o kintsukuroi aplicado a outros materiais:

Metal:

 

 

 

 

 

Pedra preciosa:

 

 

 

 

 

Vidro:

Crédito na imagem

 

 

 

Kintsukuroi significa “reparar com ouro” em japonês, e é a arte de reparação de cerâmica com ouro e entendimento de que a peça é ainda mais bonita por ter sido quebrada.

 

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