Hikikomori – A Síndrome do Isolamento Extremo

hikikomori

Podemos classificar o hikikomori como depressão? É uma frescura de “gente fraca”? É um tipo de fobia social? Porque isso ocorre? Que tipo de pessoa é atingida por essa doença tão grave e porque não recebeu a devida atenção?

 

Hikikomori ou Síndrome do Isolamento Doméstico é uma condição que, ao permanecer por muito tempo, torna-se de fato uma doença. É algo muito comum no Japão. Durante muito tempo não recebeu a devida atenção e, por isso, tornou-se um problema de saúde pública. Além disso, essa síndrome causou e ainda causa grande impacto social no país, mas falaremos detalhadamente sobre isso mais adiante.

 

Para responder essas perguntas, é necessário entender um pouco mais da cultura japonesa “moderna”.

 

Hikikomori e a Cultura Japonesa

Antes de explicar sobre a síndrome, temos que entender como a sociedade funciona.

Obs: Este texto não visa de forma alguma julgar ou incriminar a cultura japonesa. Destaca-se também que os fatos aqui descritos não são uma regra, são apenas os principais fatos relacionados as tradições nipônicas que levam o indivíduo à prática do hikikomori.

O jovem, ainda no Ensino Fundamental, já é cobrado de tal maneira, que ele é incitado à competitividade. Se um aluno tira nota baixa, por exemplo, sofre com o ijime (bullying). Isso estende-se ao colegial e, dependendo da reputação do aluno, chega até a faculdade. Vale ressaltar que essa cobrança é predominante sobre os meninos, pois na maioria dos casos, o homem é educado para ser o “mantenedor” da família, e a menina, desde cedo, entende que ser boa dona de casa é  o primeiro passo para ser boa pretendente.

 

Naturalmente segue-se a tendencia da perfeição. A cultura nipônica presa por atividades exercidas de forma singular, sem erros ou com o mínimo de erros possíveis. O homem deve se destacar dos demais para ser alguém que representará o nome de sua família. A moça não é forçada a seguir o padrão e não tem a mesma obrigação no que diz respeito aos estudos.

 

O problema é que em grande parte das vezes, ao se deparar com um jovem retraído socialmente devido alguma frustração, seja uma decepção amorosa ou repetência na escola, ele não recebe a orientação necessária ou incentivo para superar esse fracasso. Isso tanto em casa quanto nos outros ambientes nos quais ele frequenta. De um lado, o jovem entende que não deve incomodar os outros com sua frustração, que dele lidar com isso sozinho. A família geralmente não vai atrás de ajuda (no início) pois subentende-se que ele sabe de seu fracasso e que irá se redimir. Esse impasse faz com o indivíduo dê os primeiros passos rumo ao hikokimori. 

 

O termo hikikomori foi criado nos anos 2000 pelo Dr. Tamaki Saito, renomado psicólogo, especialista em psiquiatria da puberdade e adolescência. Na ocasião, ele constatou em seus estudos que o retração social, ou seja,o isolamento extremo era  um sintoma de outros problemas subjacentes e não tratavam da forma correta, vendo como um padrão de comportamento que requer tratamento especial.

De modo geral, os sintomas não são lineares, transitando da agressividade aguda à infantilidade. O que caracteriza um hikikomori é de fato o isolamento do mundo externo. Mas não é simplesmente “não ter amigos”. Trata-se de ações que a própria cultura impõe ao jovem e essas cobranças são interpretadas de forma negativa, levando o adolescente, que não possui uma estrutura intelectual preparada para essa pressão, levando-o, desta maneira ao isolamento extremo.

 

 

Estágios do Hikikomori

hikikomori medico

A classificação do hikikomori varia de acordo com a intensidade do isolamento do indivíduo. Vale ressaltar que essa classificação não é uma análise clínica, apenas uma forma de entendermos como essa síndrome se desenvolve e quão complexa é a reinclusão social do indivíduo. Os termos abaixo referem-se às termologias amplamente utilizadas no Japão, contudo, são apenas de cunho popular. Mais de 90% dos casos são jovens do sexo masculino, devido a cobrança social que o homem é submetido.

 

Estágio 1 – Pré-Hikikomori ou junhikikomori: É quando o indivíduo inicia o processo de isolamento. As causas são diversas mas todas têm vínculo direto com os acontecimentos na vida do paciente. Neste estágio, ele consegue sair de casa, algumas vezes, seja a trabalho ou estudo, mas já não apresenta muito contato social. Esta fase quase sempre passa desapercebida pois os sintomas ainda são similares aos da depressão e tantos outros problemas mais simples.

 

 

Estágio 2 – Hikikomori: Aqui, já é possível identificar a doença pois o indivíduo não quer exercer atividades como estudar ou trabalhar, mas ainda mantém algumas relações sociais, geralmente usando a internet. Dentro de casa, vive quase que integralmente dentro do próprio quarto. Troca o dia pela noite, justamente para evitar o convívio social.

 

 

Estágio 3 – Tachisukumi-gata: Nesta etapa, o paciente tem uma forte fobia social, tendo as mesmas características de uma pessoa com síndrome do pânico quando em público. Os sintomas de isolamento se repetem, mas nesta ocasião, há a presença da agressividade.

 

 

Estágio 4 – Netogehaijin: Neste estágio a doença já está fortemente agredindo o sistema neurológico do indivíduo. Ele tem aparência similar a de um zumbi, pois apresenta pouca vitalidade. A resolução da síndrome é muito mais complicada pois já afetou também a saúde do indivíduo, podendo, em alguns casos ter perda de lucidez.

 

 

Impacto na Sociedade

A síndrome do isolamento extremo afeta fortemente a economia do país, uma vez que um número alto de pessoas deixam de atuar no mercado de trabalho e em muitos casos, têm como consequência a sobrecarga de atividades exercidas pelos mantenedores desse indivíduo. A pressão psicológica e o stress sofrido por quem tem uma vitima do isolamento em casa, também pode acarretar problemas de saúde, em casos extremos, levando familiares ao suicídio por não saber como ajudar.

 

Além do mercado de trabalho, e a área da saúde, o aspecto social também é impactado, já que o hikikomori também tem influência, ainda que indireta na baixa taxa de natalidade do país.

 

Algo que deve ser considerado é que a reintegração total do indivíduo leva um tempo pois ele vai melhorando e indo para “estágios anteriores” da síndrome até estar inteiramente reintegrado as atividades mantendo um emprego fixo e não tendo mais dependência de seus pais.

 

 

Tratamento do Hikikomori

hikikomori divulgação

Na maioria das vezes, o paciente com a síndrome do isolamento extremo é levada por familiares e a força para o início do tratamento. Mais de 70% dos pacientes já encontram-se em estágios avançados do hikikomori pois os sintomas iniciais são semelhantes a várias outras doenças, o que dificulta o diagnóstico.

 

De modo geral, os pacientes têm como principal característica o isolamento social. Em fase avançada, já não possuem preocupações com a saúde e higiene.

 

Com base nos estudos realizado até agora, o hikikomori é uma condição diferenciada de outras doenças mentais. Estipula-se que a metade dos pacientes com essa síndrome possuem de fato quadros clínicos de distúrbios mentais.

 

O diagnóstico de hikikomori é obtido quando o indivíduo se abstrai por completo de contato social durante 6 meses ou mais. Constatou-se também, durante os estudos que um indivíduo que já tenha vivenciado a  síndrome tem 6,1 vezes mais chance de desenvolver algum quadro psiquiátrico. Mais informações sobre o estudo que tenta separar o hikikomori de outros transtornos psicológicos podem ser obtidas aqui – (em inglês).

 

Algo importante a se destacar: o hikikomori não é sinônimo de depressão, não é sociofobia, e também não tem vínculo com NEET.  

Vamos à uma breve distinção dos termos supracitados:

 

Depressão: Tem como principal sintoma tristeza profunda, melancolia. Na maioria dos casos, a pessoa é pessimista e não tem uma perspectiva de vida. Algo que nem todos sabem é que a depressão também causa distúrbios gastrointestinais no indivíduo, dores de cabeça devido ao acumulo de emoções negativas, além da clássica insônia e muitos outros sintomas. Nesta condição, o indivíduo não percebe que está com esses problemas, não entende que precisa de ajuda médica.

 

Sociofobia: Ansiedade extrema e medo persistente de situações nas quais o individuo julgue ser avaliado. Nessa condição, geralmente contrai sintomas como  taquicardia, tremores, boca seca,sensação de bolo na garganta, dificuldade para falar, ondas de calor e vários outros. A pessoa reconhece que o medo é irracional, faz a autocrítica constante quanto a isso, mas não consegue controlar os sintomas.

 

NEET: Sigla que deriva de  “Not currently engaged in Employment, Education or Training”, algo como “Atualmente sem Emprego, Educação e Treinamento”. Essa expressão surgiu para caracterizar o indivíduo que não busca evolução social. Fica sem emprego e educação por conta própria, mas não se priva totalmente do vínculo com a sociedade.

Os métodos para tratar hikikomori variam. Há poucos dados para apoiar a eficácia de qualquer abordagem. O mais comum é fazer uma série de entrevistas com o paciente para fazer a separação e detecção de qualquer problema psicológico. Após este processo, é feito, de maneira sutil a exposição do paciente a pessoas para que tenham novamente vontade de ir para as ruas.


A abordagem varia de cidade para cidade e de acordo com as características do paciente. Caso haja algum caso clínico como altismo, agressividade extrema, a exposição ocorre de forma diferente, mas sempre de forma breve, como uma conversa online e eventualmente um encontro (não necessariamente amoroso, apenas para um lanche e falar sobre seus gostos, por exemplo).

 

Existem pessoas que formam grupos voluntários para auxílio dos hikikomori, onde quase sempre há alguém que superou a síndrome e investe parte do seu tempo palestrando e encorajando outras pessoas.
Conforme descrito na matéria do Japão em Foco, o governo japonês já criou programas assistenciais para o tratamento da síndrome, sendo em grande parte, pessoas do sexo feminino as influenciadoras para reinclusão social, uma vez que são mais sensíveis e, obviamente, por serem do sexo oposto.

 

Curiosamente, esses programas de extensão devem ser realizados paralelamente com a “investigação sobre métodos de apoio eficazes” e o “desenvolvimento de programas para treinar o pessoal que estarão envolvidos em atividades de apoio.” Em outras palavras, os métodos de apoio ainda não foram totalmente estabelecidos , mas o governo está indo adiante.  De qualquer modo, é de suma importância exercer extrema cautela na realização das atividades de exposição dos pacientes ao ‘mundo real’, propostos no tratamento.

As pessoas que participam do grupo de apoio e ou programas assistenciais recebem um treinamento para saber ligar com a personalidade do paciente.

 

Hikikomori: Curiosidades

A síndrome do isolamento extremos tem uma associação direto com a cultura otaku. Isso ocorre pois grande parte dos pacientes têm idade entre 11 e 24 anos, ficam trancados em seus quartos, geralmente consumindo materiais semelhantes aos otaku e, por isso, fazem essa comparação. Mas não há registros conclusivos que indicam que um otaku torne-se um hikikomori, trata-se apenas de coincidência, (embora existam de fatos pessoas fãs da cultura pop que desenvolvam este tipo de problema em decorrência de algum trauma no decorrer de sua juventude.)

 

 

Em seu livro, Saito expõe sua justificativa para considerar que o hikikomori é um transtorno do desenvolvimento, e não o resultado da cultura japonesa. Ele ressalta que muitos distúrbios psicológicos aparecem pela primeira vez durante a adolescência, e diz que o problema raiz do hikikomori é a incapacidade de amadurecer.

 

 

 

Considerações Finais

Engana-se quem acha que o hikikomori é mais uma “mania” ou “extravagancia japonesa”. Trata-se de um fenômeno mundial advindo principalmente por causa da tecnologia. Claro que os aspectos culturais também são de grande influência, mas como dito no início da matéria, o indivíduo que evita o contato pessoal, em praticamente 100% dos casos, troca o dia pela noite e se comunica com o mundo externo por meio do computador e TV, mas sem o convívio social.

Logo, trata-se de algo sério e que precisa ser observado. Se você é mãe e percebeu um distanciamento social de seu filho ou mesmo de alguém que tenha contato, ajude compartilhando as informações deste post para que este problema seja tratado de maneira correta. As vezes, um simples, “Gambatte kudasai.” pode soar de maneira indesejada e fazer toda a diferença (negativamente) no processo.

Fontes: BBC, NCBI, Japão em Foco e Dailmail

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